sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Como Funciona? #1 - Motores quatro-tempos


Esta é a primeira postagem da série "Como Funciona?", que tem por objetivo apresentar, de forma mais clara possível, a tecnologia por trás das nossas máquinas, especialmente as de duas rodas. Como não sou mecânico profissional (portanto perdão pelos vacilos :) ), procurarei utilizar a linguagem mais simples possível, embora seja às vezes inevitável recorrer ao jargão técnico.

Nesta primeira postagem, apresento-lhes o funcionamento básico dos motores de combustão interna, especialmente os motores quatro-tempos.


Introdução geral aos motores de combustão interna.

A parte mais crítica de um veículo automotor – seu motor – é composta por um conjunto complexo de peças que devem funcionar em perfeito sincronismo para cumprir seu principal objetivo: transformar a energia calorífica contida no combustível em energia cinética, ou seja, em movimento. Esse conjunto é formado por válvulas, rolamentos, engrenagens etc., que devem estar sob constante lubrificação para evitar os danos causados pelo atrito entre as peças metálicas. Mas, como o motor consegue transformar a energia latente do combustível em calor e, posteriormente, movimento?

     Um retorno à Química.

Os motores convencionais – pelo menos todos os que eu conheço – utilizados em carros e motos são chamados motores de combustão interna (embora sejam erroneamente chamados motores a explosão – tecnicamente, trata-se de processos diferentes). Assim, para que haja a transformação energética (olha o Lavoisier aí, gente!), é necessário que o combustível entre em combustão (meio óbvio, não?). A combustão, por sua vez, é um processo que necessita da presença de três componentes básicos (triângulo do fogo): o combustível, o comburente (oxigênio) e uma fonte de calor. Sem um desses elementos, não há combustão (esta propriedade é utilizada, por exemplo, nos mecanismos de extinção de incêndios). Nos motores de que estamos falando, há sistemas dedicados a cuidar do funcionamento de cada uma dessas fases da combustão.

Para que haja um processo de combustão eficiente, faz-se necessário que o combustível seja misturado ao ar atmosférico (que contém o oxigênio) numa proporção maior (mistura rica) ou menor (mistura pobre) de combustível em relação ao ar (em linhas gerais, haverá sempre mais ar que combustível). O processo de mistura – um dos pontos críticos do sistema – é efetuado pelo carburador ou, em modelos mais novos, pelo sistema de injeção eletrônica de combustível (Electronic Fuel Injection – EFI). A fonte de calor, por sua vez, é fornecida pela vela de ignição. A vela de ignição produz uma faísca, induzida por uma corrente elétrica de alta intensidade (fornecida por uma bobina de alta voltagem), que ao entrar em contato com a mistura ar-combustível, faz com que esta última se inflame.

Já sabemos como os elementos necessários à combustão estão situados no sistema. Mas, como a energia desprendida por meio da combustão é efetivamente transformada em energia cinética? O vídeo abaixo traz um esquema geral de como se dá esse processo.


Animação com o funcionamento do motor quatro-tempos

A combustão da gasolina (ou outro combustível) ocorre no interior de uma câmara de combustão. Esta possui geralmente um formato cilíndrico, onde a mistura ar-combustível é comprimida por um êmbolo (pistão) ligado por uma haste (biela) a uma manivela (virabrequim). A energia liberada pelo processo de combustão no interior da câmara desloca o conjunto pistão-biela para baixo, num movimento linear cíclico (sobe-desce) que é transformado em movimento circular pelo virabrequim.

     O motor quatro-tempos.

Os motores convencionais de combustão interna dividem-se, basicamente, entre dois tipos: aqueles chamados dois-tempos (mais detalhes sobre o sistema serão apresentados brevemente noutro post) e os assim chamados quatro-tempos. A nomenclatura quatro-tempos refere-se à quantidade de fases pelas quais o motor passa para transformar o combustível em movimento. Essas fases são descritas a seguir.

Fase 1: Admissão. Nesta fase, a mistura ar-combustível, proveniente do carburador ou do sistema de injeção eletrônica, deve ser admitida para a câmara de combustão. Esta admissão se dá quase naturalmente por meio da baixa pressão criada pelo movimento de descida do pistão, ao aumentar o volume da câmara de combustão. A mistura é, portanto, aspirada para o interior da câmara por vácuo (exceto nos sistema se injeção direta, empregados em motores de alta performance). Durante a fase de admissão, o motor gira 180°, o pistão desce até o ponto morto inferior (PMI)  – momento em que deixa de descer e inicia a subida - e a passagem da mistura ar-combustível se dá por intermédio da abertura de uma ou mais válvulas de admissão.

Fase 2: Compressão. Nesta fase, a mistura já aspirada é comprimida pelo movimento ascendente do pistão. Fecha-se a válvula de admissão, permitindo que a mistura não escape e seja comprimida. A compressão torna mais concentrada (portanto mais útil) a expansão dos gases durante o processo de combustão. Nesta fase, o motor gira mais 180° e o pistão dirige-se para o topo da câmara de combustão (ponto morto superior, PMS).

Fase 3: Combustão. No final da fase de compressão, pouco antes de o pistão atingir o PMS, o sistema de ignição faz com que a vela de ignição emita a faísca que inflamará a mistura na câmara. A ignição da mistura faz com que os gases contidos na câmara se expandam, forçando o movimento de descida do pistão até o PMI. Nesta fase, mais uma vez, o motor gira 180°.

Fase 4: Escapamento ou exaustão. Nesta etapa, o pistão volta a subir em direção ao topo da câmara de combustão. A válvula de exaustão é então aberta permitindo que os gases provenientes da combustão sejam empurrados para fora do sistema pelo movimento ascendente do pistão. O motor gira outros 180° e, findada a fase de exaustão, um novo ciclo se inicia por meio da abertura da válvula de admissão e a admissão de uma nova mistura.

     Características do motor quatro-tempos

Conforme vimos, no motor quatro-tempos, cada fase é levada a termo enquanto o motor dá meia volta. Ou seja, para que se complete um ciclo, é necessário que o motor gire duas vezes (720°). Com isso, faz-se necessário que o sistema gire com o mínimo de atrito possível, já que precisa aproveitar a inércia em 75% do ciclo (540°), caso o motor seja monocilíndrico (composto por apenas uma câmara de combustão). Este é o caso na maioria das motos de baixa e média cilindrada (a título de curiosidade, o termo “cilindrada” refere-se ao volume da câmara de combustão, que guarda estreita relação com a potência do motor, embora outras variáveis estejam envolvidas). Em motores com mais de um cilindro, a fase de combustão é defasada entre os cilindros, gerando um melhor aproveitamento da energia desprendida em cada combustão. Os motores dois-tempos, por sua vez, executam as quatro fases em uma volta (360°) ao invés de duas, gerando um ótimo aproveitamento da energia desprendida a cada ciclo (o motor dois-tempos será minuciosamente apresentado noutro post).

Outra característica dos motores quatro-tempos é a necessidade de um grande número de partes móveis: molas, válvulas, correntes, eixos de comando, etc. Isso colabora com o maior atrito e consequentemente com a perda de rendimento do motor, que precisa ser compensada com o uso de peças leves e um eficiente sistema de lubrificação. Um motor quatro-tempos será fatalmente menos potente que um equivalente dois-tempos com mesma cilindrada. Embora essas duas características – maior número de peças móveis (maior necessidade e complexidade de manutenção) e menor rendimento comparado ao motor dois-tempos pareçam penalizar os motores quatro-tempos, seu uso quase exclusivo nos veículos de passeio não é em vão. É que os motores quatro-tempos são mais “limpos”, gerando menos poluentes, além de reduzirem drasticamente o consumo de combustíveis, fator crítico para o usuário.



Fique ligado, nas próximas semanas apresentarei em detalhes o funcionamento dos motores dois-tempos (uma obra-prima da engenharia de motores), suas vantagens e desvantagens em relação aos motores de quatro tempos. Deixe suas dúvidas e impressões nos comentários. Até breve!

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